AMÍGDALAS E AMIGDALITE
© Dr. Alessandro Loiola
O plantão está corrido, mas tranqüilo. A meio caminho de tomar um café para
espantar o frio do inverno, o som avisa: “Dr. Alessandro, favor comunicar com o
ramal 301... Dr. Alessandro, favor comunicar com...”.
Ao contrário dos seriados da TV, nos hospitais de verdade eles repetem as chamadas
várias e várias vezes por vários motivos. O principal deles é o fato do som vir
tão cheio de interferências que a maioria de nós mortais só consegue entender“Doutor alersmurfinuns... ramal tzentozezum”.
“Chegou uma paciente e ela não está bem não”, avisa a enfermeira ao telefone. A
paciente se chama Carolina. Tem 11 anos, uma mãe, uma avó e uma cara de choro de
dar inveja a novela mexicana.
- Amigdalite de novo, doutor - avisa a mãe.
A parte boa das mães é que elas quase sempre trazem o diagnóstico na ponta da
língua. A parte ruim é que elas quase sempre trazem o diagnóstico na ponta da
língua.
- De novo?
- De novo. Vive tendo isso. Há umas duas semanas, teve igualzinho e eu tratei por
minha conta...
- Que ótimo – faço as perguntas de praxe, examino pressão, pulmões, garganta,
articulações...
- ...Na última vez, dei logo um antibiótico e nem precisou ir ao médico. Mas é a
quarta só este ano. Fiquei preocupada, decidi procurar o hospital. A Carolina não
gosta muito de médico, mas fazer o quê, não é?
- Que ótimo – sento, anoto na ficha. Também não gosto de médicos. Sempre preferi
as médicas. E sim, a mãe está certa: é uma amigdalite. E das grandes. Carolina tem
todo direito de fazer cara de choro. Mas...
- A senhora já ouviu falar em Febre Reumática?
A avó me aponta com a bolsa: - Reumatismo, eu tenho!
- Não, não. Febre Reumática. Não reumatismo. São problemas diferentes – e sem
querer assustar mas já assustando, pego uma folha de papel para explicar (só sei
explicar rabiscando, será que tem tratamento pra isso?) -. Uma simples dor de
garganta, se não for tratada direito, pode resultar em doença cardíaca grave e até
mesmo em morte.
Pronto, a palavra mágica. Morte. Não tem mais jeito: agora até você irá prestar
atenção.
O inverno é ingrato com as gargantas mais frágeis. O ar frio e seco, a tendência
de ficarmos mais próximos uns dos outros e as janelas fechadas favorecem a
disseminação de todo tipo de microorganismo. As Amígdalas fazem parte de um grupo
de gânglios que analisa a presença destes germes nas partículas que respiramos. No
caso de uma infecção respiratória, uma de suas funções é facilitar a produção de
anticorpos para eliminar o agente invasor.
O problema começa quando as inflamações repetidas nas Amígdalas resultam na
produção de anticorpos defeituosos, que atacam tanto as bactérias quanto outras
estruturas sadias do próprio corpo. Este estado de resposta míope do sistema de
defesa se chama Febre Reumática. Dos 10 milhões de casos de amigdalite que ocorrem
no Brasil a cada ano, cerca de 30 mil não serão tratados corretamente e irão
evoluir para Febre Reumática.
A Febre Reumática é mais comum em mulheres entre os 05 e 15 anos de idade. Os
principais sintomas incluem febre, inchaço e dores nas articulações
(principalmente joelhos, cotovelos e tornozelos), cansaço, falta de ar e
aceleração dos batimentos cardíacos. Nos estágios mais avançados, a doença pode
destruir completamente as válvulas cardíacas.
Antigamente, para evitar estas complicações, os médicos retiravam toda e qualquer
Amígdala que olhasse torto para eles. Mas os tempos mudaram e as Amígdalas se
tornaram menos descartáveis. Hoje, o tratamento padrão da amigdalite consiste em
antibióticos por cerca de 7 a 10 dias. Alguns analgésicos, antiinflamatórios e
chás naturais são úteis para aliviar os sintomas, mas não substituem os
antibióticos. A remoção das amígdalas está indicada para pessoas que sofrem mais
de 5 episódios de Amigdalite por ano.
No caso da Carolina, ela recebeu orientações para acompanhamento, uma semana de
amoxicilina e a recomendação de tomar uma injeção de penicilina benzatina
(Benzetacil) a cada 21 dias por pelo menos 1 ano e, provavelmente, até os 18 anos
de idade. Benzetacil a cada 21 dias?? Infelizmente, Carolina, este esquema é o
melhor para evitar a Febre Reumática. Trocar uma válvula em um coração reumático
dói bem mais que um benzetacil a cada 3 semanas, acredite. Paciência. E lá se
foram Carolina, a mãe, a avó e a cara de choro.
Encostei a porta do consultório com o senso do dever cumprido e estava a meio
caminho de tomar aquele café para espantar o frio, quando o som avisou: “doutor
alersmurfinuns, ramal tzentozédois...”.
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Dr. Alessandro Loiola é médico, escritor, palestrante, autor de “Vida e Saúde da
Criança” e “Crianças em forma: saúde na balança” (www.editoranatureza.com.br).
Atualmente reside e clinica em Belo Horizonte, Minas Gerais.
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